A retórica desmedida após a Operação Mederi
É precipitada qualquer conclusão neste momento que aponte o cometimento de crimes pelo prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra (União). Não há sequer denúncia formalizada, muito menos condenação. O que há por enquanto é um processo de investigação de indícios. A Operação Mederi, deflagrada nesta semana, cumpriu mandados de busca e apreensão para recolher evidências – […] O post A retórica desmedida após a Operação Mederi apareceu primeiro em Jornal O Mossoroense.
É precipitada qualquer conclusão neste momento que aponte o cometimento de crimes pelo prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra (União). Não há sequer denúncia formalizada, muito menos condenação. O que há por enquanto é um processo de investigação de indícios. A Operação Mederi, deflagrada nesta semana, cumpriu mandados de busca e apreensão para recolher evidências – que poderão confirmar as suspeitas, ou não. Mas cabe uma análise crítica sobre o comportamento político adotado pelo prefeito desde que recebeu os agentes da Polícia Federal, na última terça-feira. Após a deflagração da operação, Allyson passou a conceder uma enxurrada de entrevistas. Em vários momentos, apelou para o emocional. É perceptível que a operação provocou um impacto no prefeito. Receber a visita da PF em casa não é algo trivial para ninguém, muito menos para um gestor público em plena projeção estadual. Ainda assim, a forma como o prefeito tem reagido merece reflexão. Em vez de se limitar a uma defesa técnica e institucional, Allyson optou por inaugurar um novo discurso político, ancorado no que chama de ação do “sistema” contra ele. Nesse sentido, tem dado coro a uma tese: “O sistema não aceitou nunca a nossa chegada a essa posição e a aceitação popular”. Ao evocar repetidamente um suposto “sistema” que o estaria perseguindo, o prefeito deixa uma pergunta no ar: afinal, de que sistema está falando? Quando se acusa algo ou alguém de atuar de forma coordenada, é razoável que se explicite quem são os atores, quais interesses estariam em jogo e em que medida isso se materializa nos fatos concretos. O prefeito beira a imprudência com tais comentários sem demonstrar do que exatamente está falando. Parece açodado e mal assessorado. Não parece plausível que o “sistema” seja aquele derrotado nas urnas em Mossoró em 2020, representado na figura da ex-prefeita e ex-governadora Rosalba Ciarlini. Ainda que existissem rivalidades políticas locais, nenhuma estrutura política isolada teria poder para acionar, por conveniência, a Controladoria-Geral da União, a Polícia Federal e obter autorizações judiciais para diligências dessa natureza. Essas instituições não operam por vingança eleitoral, mas a partir de indícios minimamente consistentes, que aliás estão presentes na decisão que autorizou as buscas e precisam ser analisados com rigor. Também não faz muito sentido atribuir a investigação a grupos políticos que hoje, em grande parte, orbitam o campo de alianças do próprio prefeito ou dialogam com seu projeto estadual. Ao ampliar demais o conceito de “sistema”, o discurso corre o risco de se tornar vazio – ou, pior, de soar como uma tentativa de deslocar o debate do campo institucional para o terreno da narrativa política e da vitimização. É ainda mais improvável que se trate de uma perseguição do Judiciário ou dos órgãos de controle. Allyson sempre foi visto como um político com bom trânsito institucional no Rio Grande do Norte. Não há histórico público de conflito entre o prefeito e essas instâncias que sustentasse a tese de retaliação. Ele próprio repetiu que tem muito respeito pelo Poder Judiciário. O que se viu, até aqui, foi o funcionamento regular do sistema de controle do Estado: órgãos fiscalizadores, polícia investigativa e Justiça. Seria o PT, que controla atualmente o Governo do Estado? Seria o senador Rogério Marinho e o seu PL? Allyson não deixa claro. Nesse contexto, ao politizar excessivamente a investigação e tentar desqualificar indícios já apontados como relevantes pela CGU e pela Polícia Federal, o prefeito flerta com uma linha tênue entre a legítima defesa e a imprudência. Falar demais, sob pressão, costuma ser um risco elevado. Talvez seja o momento de desacelerar. Menos entrevistas, menos cortes para redes sociais, menos tentativa de moldar a imagem em tempo real. O momento exige reflexão, sobriedade e responsabilidade institucional. Especialmente porque as decisões que se avizinham são graves: eventual renúncia à Prefeitura para disputar o Governo do Estado, por exemplo, pode se revelar irreversível. Uma candidatura estadual, que até pouco tempo parecia sólida e ascendente, agora enfrenta um cenário de incerteza. E essa incerteza não afeta apenas o projeto pessoal do prefeito, mas também Mossoró. Allyson foi reeleito com mais de 70% dos votos, sob a expectativa de que o mesmo empenho do primeiro mandato se traduzisse em mais quatro anos de dedicação à cidade. Antecipar a saída, em meio a uma investigação ainda em curso, pode frustrar não apenas uma estratégia política, mas a confiança depositada por uma ampla maioria do eleitorado. A política, como a gestão pública, exige timing. E, neste momento, talvez o maior gesto de força não esteja no enfrentamento retórico de um “sistema” difuso, mas na capacidade de reconhecer a gravidade do contexto, pisar com cuidado no terreno instável e permitir que os fatos sejam apurados com serenidade.
Editorial do AGORARN, edição 31.01.26
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