'Agora temos esperança de voltar': refugiados venezuelanos no Brasil comemoram captura de Maduro, mas temem por parentes que ficaram

Francis Salazar, 46, advogada venezuelana que vive em São Paulo há oito anos e hoje trabalha como assistente de contabilidade. Arquivo pessoal Figurinhas e memes de "Venezuela livre" se espalharam pelo Whatsapp de venezuelanos que moram no Brasil depois da captura do presidente Nicolás Maduro pelo governo americano neste sábado (3). O clima entre os refugiados entrevistados pela BBC Brasil é de comemoração e alívio, com alguns já pensando na possibilidade de retornar ao país de origem após anos fora. Em Boa Vista (RR), um grupo está organizando um ato de comemoração em uma praça, para esta noite. Mas o fechamento das fronteiras com o Brasil, a dificuldade de conseguir notícias dos parentes que ficaram lá e a insegurança sobre o que vai acontecer em Caracas nos próximos dias também geram preocupação entre os migrantes. Trump diz que Estados Unidos vão administrar a Venezuela Uma venezuelana que mora há dez anos no Brasil foi passar o natal com uma irmã doente em Ciudad Bolivar e agora não sabe se vai conseguir voltar. Após sete anos sem ir para lá, ela viajou com o marido e os três filhos pequenos, todos nascidos no Brasil, e comprou passagem para retornar a Boa Vista nesta segunda-feira (5) — a família tem emprego, apartamento alugado e cachorros de estimação na cidade brasileira. R. aceitou contar sua história por telefone, mas pediu que seu verdadeiro nome não fosse divulgado porque tem medo de represálias enquanto estiver na Venezuela. O casal pensou em antecipar a saída e ir hoje até a cidade de Santa Elena, na fronteira com o estado de Roraima, para esperar até que a passagem entre os dois países seja reaberta, mas soube que os terminais de ônibus e os postos de combustível de sua cidade estão fechados. "Todas as nossas coisas estão no Brasil. Nosso emprego, nossas responsabilidades. Dia 10 tenho que pagar aluguel, na quarta-feira tenho que voltar a trabalhar. Mas acabaram de fechar o terminal. O país está em estado de sítio, não tem como sair nem de casa", afirmou. R. diz que deletou as redes sociais de seu celular antes de entrar na Venezuela, por medo de ser revistada na estrada e encontrarem críticas suas ao regime de Maduro. Ontem, logo antes de dormir, estava vendo um canal do Youtube no computador da irmã quando veio a notícia de que ele havia sido capturado. "Choramos de emoção. Ninguém dormiu aqui em casa. Mas quem está fora do país pode comemorar. Quem está dentro tem que ser cauteloso, porque há riscos e a gente não sabe nada sobre como vai ser a partir de agora", afirmou. LEIA TAMBÉM: Trump diz que EUA vão governar Venezuela interinamente e controlar petróleo do país EUA detalham operação que levou à captura de Nicolás Maduro na Venezuela Ataque dos EUA na Venezuela deixou 40 mortos, diz jornal 'É algo que nós esperávamos há muito tempo, mas também sinto um pouco de medo' A empreendedora venezuelana Katherine Mota, 31, com sua família. Arquivo pessoal Também moradora de Boa Vista, a empreendedora Katherine Mota, 31, que se mudou para o Brasil há sete anos, se diz tomada por uma mistura de sentimentos. "Estou feliz porque é algo que nós esperávamos há muito tempo, mas também sinto um pouco de medo porque ainda tenho família lá e não sabemos o que pode acontecer agora. As Forças Armadas estão nas ruas, muitos comércios fecharam e as pessoas estão fazendo compras compulsivamente com medo da escassez de alimentos. Todo mundo tem esperança, mas é um momento de muita incerteza", afirmou. Ela diz que está um pouco mais tranquila porque sua mãe, sua avó e uma tia vieram visitá-la neste fim de ano e estão atualmente no Brasil. Elas pretendiam voltar para a Venezuela na próxima sexta, mas não sabem mais se será possível. Katherine diz que gosta do Brasil, mas agora vê uma possibilidade de retornar para a Venezuela no futuro. "Amo muito Roraima, mas a gente tem esperança de voltar." Cerca de 7,9 milhões de pessoas deixaram a Venezuela, segundo o Acnur (comissariado da ONU para refugiados). Mais de 6,9 milhões vivem na América Latina e no Caribe. No Brasil, os venezuelanos são o maior grupo entre os imigrantes: segundo o Censo de 2022 do IBGE, mais de 271 mil pessoas dessa nacionalidade vivem no país. 'Parei de respirar naquele momento' Francis Salazar, 46, advogada venezuelana que vive em São Paulo há oito anos e hoje trabalha como assistente de contabilidade, com os filhos. Arquivo pessoal Assistente contábil em São Paulo, a venezuelana Francis Salazar acordou neste sábado com mensagens de amigos e parentes que vivem em vários países do mundo, falando sobre a captura de Maduro. "Parei de respirar naquele momento. Meus olhos lacrimejaram. Pensei: 'por fim, o dia chegou'", diz. A venezuelana afirma que tem críticas a Donald Trump, mas que neste momento o que importa para ela e outros conterrâneos é ele ter tirado Maduro do poder. "Já temos nossos próprios problemas do lado de cá. Ele está tentando solucionar um problema dele e solucionou o nosso também. Tem mais de 7 milhões de pessoas, refugi

Jan 4, 2026 - 01:30
 0  0
'Agora temos esperança de voltar': refugiados venezuelanos no Brasil comemoram captura de Maduro, mas temem por parentes que ficaram

Francis Salazar, 46, advogada venezuelana que vive em São Paulo há oito anos e hoje trabalha como assistente de contabilidade. Arquivo pessoal Figurinhas e memes de "Venezuela livre" se espalharam pelo Whatsapp de venezuelanos que moram no Brasil depois da captura do presidente Nicolás Maduro pelo governo americano neste sábado (3). O clima entre os refugiados entrevistados pela BBC Brasil é de comemoração e alívio, com alguns já pensando na possibilidade de retornar ao país de origem após anos fora. Em Boa Vista (RR), um grupo está organizando um ato de comemoração em uma praça, para esta noite. Mas o fechamento das fronteiras com o Brasil, a dificuldade de conseguir notícias dos parentes que ficaram lá e a insegurança sobre o que vai acontecer em Caracas nos próximos dias também geram preocupação entre os migrantes. Trump diz que Estados Unidos vão administrar a Venezuela Uma venezuelana que mora há dez anos no Brasil foi passar o natal com uma irmã doente em Ciudad Bolivar e agora não sabe se vai conseguir voltar. Após sete anos sem ir para lá, ela viajou com o marido e os três filhos pequenos, todos nascidos no Brasil, e comprou passagem para retornar a Boa Vista nesta segunda-feira (5) — a família tem emprego, apartamento alugado e cachorros de estimação na cidade brasileira. R. aceitou contar sua história por telefone, mas pediu que seu verdadeiro nome não fosse divulgado porque tem medo de represálias enquanto estiver na Venezuela. O casal pensou em antecipar a saída e ir hoje até a cidade de Santa Elena, na fronteira com o estado de Roraima, para esperar até que a passagem entre os dois países seja reaberta, mas soube que os terminais de ônibus e os postos de combustível de sua cidade estão fechados. "Todas as nossas coisas estão no Brasil. Nosso emprego, nossas responsabilidades. Dia 10 tenho que pagar aluguel, na quarta-feira tenho que voltar a trabalhar. Mas acabaram de fechar o terminal. O país está em estado de sítio, não tem como sair nem de casa", afirmou. R. diz que deletou as redes sociais de seu celular antes de entrar na Venezuela, por medo de ser revistada na estrada e encontrarem críticas suas ao regime de Maduro. Ontem, logo antes de dormir, estava vendo um canal do Youtube no computador da irmã quando veio a notícia de que ele havia sido capturado. "Choramos de emoção. Ninguém dormiu aqui em casa. Mas quem está fora do país pode comemorar. Quem está dentro tem que ser cauteloso, porque há riscos e a gente não sabe nada sobre como vai ser a partir de agora", afirmou. LEIA TAMBÉM: Trump diz que EUA vão governar Venezuela interinamente e controlar petróleo do país EUA detalham operação que levou à captura de Nicolás Maduro na Venezuela Ataque dos EUA na Venezuela deixou 40 mortos, diz jornal 'É algo que nós esperávamos há muito tempo, mas também sinto um pouco de medo' A empreendedora venezuelana Katherine Mota, 31, com sua família. Arquivo pessoal Também moradora de Boa Vista, a empreendedora Katherine Mota, 31, que se mudou para o Brasil há sete anos, se diz tomada por uma mistura de sentimentos. "Estou feliz porque é algo que nós esperávamos há muito tempo, mas também sinto um pouco de medo porque ainda tenho família lá e não sabemos o que pode acontecer agora. As Forças Armadas estão nas ruas, muitos comércios fecharam e as pessoas estão fazendo compras compulsivamente com medo da escassez de alimentos. Todo mundo tem esperança, mas é um momento de muita incerteza", afirmou. Ela diz que está um pouco mais tranquila porque sua mãe, sua avó e uma tia vieram visitá-la neste fim de ano e estão atualmente no Brasil. Elas pretendiam voltar para a Venezuela na próxima sexta, mas não sabem mais se será possível. Katherine diz que gosta do Brasil, mas agora vê uma possibilidade de retornar para a Venezuela no futuro. "Amo muito Roraima, mas a gente tem esperança de voltar." Cerca de 7,9 milhões de pessoas deixaram a Venezuela, segundo o Acnur (comissariado da ONU para refugiados). Mais de 6,9 milhões vivem na América Latina e no Caribe. No Brasil, os venezuelanos são o maior grupo entre os imigrantes: segundo o Censo de 2022 do IBGE, mais de 271 mil pessoas dessa nacionalidade vivem no país. 'Parei de respirar naquele momento' Francis Salazar, 46, advogada venezuelana que vive em São Paulo há oito anos e hoje trabalha como assistente de contabilidade, com os filhos. Arquivo pessoal Assistente contábil em São Paulo, a venezuelana Francis Salazar acordou neste sábado com mensagens de amigos e parentes que vivem em vários países do mundo, falando sobre a captura de Maduro. "Parei de respirar naquele momento. Meus olhos lacrimejaram. Pensei: 'por fim, o dia chegou'", diz. A venezuelana afirma que tem críticas a Donald Trump, mas que neste momento o que importa para ela e outros conterrâneos é ele ter tirado Maduro do poder. "Já temos nossos próprios problemas do lado de cá. Ele está tentando solucionar um problema dele e solucionou o nosso também. Tem mais de 7 milhões de pessoas, refugiados em várias partes do mundo, batendo palmas para ele." Francis vive há oito anos no Brasil e viajou para a Venezuela há quatro anos para trazer os filhos para morar com ela, tendo que passar por trilhas ilegais e pagando propina na fronteira. Ela diz que as crianças estão adaptadas à vida em São Paulo e que não pensa em tirá-los daqui por agora. "Eles seriam migrantes no seu próprio país. Prefiro que terminem a escola. Mas agora penso em manter mais forte esse vínculo com nossa cultura. Espero que a gente volte a ter a possibilidade de ao menos visitar nosso país com segurança." Yeca Morais, venezuelana que morou por anos em Roraima e se tornou influenciadora digital entre migrantes no Brasil, diz que existe muita expectativa, entre os refugiados, de poder retornar. Ela se mudou para a Espanha há um ano, mas segue em contato com migrantes que vivem no Brasil. "Várias pessoas hoje me disseram: 'Se as coisas mudarem lá, eu volto na hora'. Tem gente só aguardando para comprar passagem. Mas a notícia acabou de chegar, está tudo muito confuso ainda. E tem muitas pessoas com a vida já consolidada no Brasil também e que vão querer ficar", afirmou. Segundo ela, o fluxo migratório para o Brasil vinha aumentando desde que Donald Trump bombardeou navios venezuelanos. "As pessoas que viviam na costa, no Caribe, ficaram com medo de uma invasão, de serem atingidas por algum bombardeio, e fugiram. Mas agora, se a ditadura cair, não só devem diminuir as saídas do país como devem aumentar os retornos para lá. A gente sai procurando melhorar de vida, mas nossa casa é a Venezuela."

What's Your Reaction?

like

dislike

love

funny

angry

sad

wow

tibauemacao. Eu sou a senhora Rosa Alves este e o nosso Web Portal Noticias Atualizadas Diariamente