Ataque à Venezuela lembra invasão ao Iraque, diz ex-subsecretária de Defesa dos EUA

REUTERS O aumento das tensões entre Estados Unidos e Venezuela nos últimos meses e da presença militar americana no Caribe levou muitos analistas a acreditarem na possibilidade de uma invasão por terra dos EUA ao território venezuelano — como de fato aconteceu na madrugada de 3 de janeiro de 2026. Mas a decisão americana de permanecer no país e de tomar o controle da indústria do petróleo da Venezuela não estava nos principais cenários de quem acompanhava de perto o assunto. No caso de Jana Nelson, ex-subsecretária de Defesa dos EUA para o Hemisfério Ocidental, havia pelo menos duas razões para que ela não considerasse que o governo de Donald Trump estaria disposto a entrar na Venezuela para explorar o petróleo venezuelano. VEJA TAMBÉM: Netanyahu apoia operação dos EUA na Venezuela Uma é a rejeição do eleitorado do republicano ao envolvimento dos EUA em guerras e mudanças de regime. O outro é a própria situação da indústria petroleira venezuelana, que, segundo ela, foi destruída nas últimas décadas sob Hugo Chávez e Nicolás Maduro. "Todos os três processos, de extração, de refino e de distribuição estão em apuros. Não é algo que simplesmente de um dia para o outro se consegue resolver", ela aponta, em entrevista à BBC News Brasil. Depois de atacar a Venezuela e de capturar Maduro, Trump afirmou que sua gestão tomaria o controle da infraestrutura petroleira do país, que seria recuperada e operada por empresas americanas para que, então, os EUA pudessem vender petróleo venezuelano para outros países. "O argumento é ingênuo, mas esse governo tende a buscar soluções simples para problemas complexos", ela opina. Olhando para o histórico de operações militares em larga escala pelo mundo, Nelson compara o ataque à Venezuela à invasão ao Iraque em 2003: "Pelo elemento petróleo, pelo elemento injustificado da retirada de governo e presença [americana] também". E alerta que o momento atual é muito diferente da última vez em que os EUA invadiram um país da América Latina e retiraram um líder do poder, como aconteceu com Manuel Noriega no Panamá em 1989. "A Venezuela é um país três vezes maior, tanto geograficamente quanto em população. Tem 20 anos de desinstitucionalização do governo", ressalta. "A situação é muito mais grave." Leia, a seguir, a entrevista. Jana Nelson foi subsecretária de Defesa para o Hemisfério Ocidental dos EUA durante a gestão Biden. Acervo pessoal BBC News Brasil - Há menos de um mês a senhora comentou em entrevista que não descartava hipótese de invasão terrestre dos Estados Unidos à Venezuela, o que de fato aconteceu. O anúncio de que os EUA decidiram administrar o país surpreendeu? Jana Nelson - Isso foi uma surpresa. Acho que para todo mundo. A população americana, em particular a base MAGA [Make America Great Again, ou "faça a América grande de novo", em tradução literal] do presidente Trump, tem dito em pesquisas de opinião várias vezes que eles não estão interessados em mudança de regime, eles não estão interessados em maiores guerras. Inclusive eles elegeram o presidente Trump para acabar com guerras. Ele, o próprio presidente Trump, tão orgulhoso de ser um presente da paz... Então a ideia de que os Estados Unidos agora vão não só invadir a Venezuela, como governar o país é realmente uma surpresa para todo mundo. A pergunta que eu acho agora é: como chegamos a esse ponto? A conferência de imprensa que ele [Trump] deu, indicou que ele está negociando com a vice-presidente, Delcy [Rodriguez] em troca de petróleo. Então, os líderes legitimamente eleitos, o Edmundo Gonzalez, com o apoio da Maria Corina Machado — que todos nós assumimos que seriam os próximos líderes da Venezuela, porque, afinal de contas, é o que a população da Venezuela quer —, esses indivíduos aparentemente foram traídos pelo presidente Trump em troca de petróleo, e estamos trocando um governo autoritário do Maduro por outro que agora é da Delcy Rodriguez, a vice-presidente. (Diante de denúncias de fraude eleitoral e de falta de transparência, diversos países não reconheceram o resultado da última eleição presidencial na Venezuela, em que Maduro disse ter sido reeleito, e apontam vitória da oposição) Tudo isso é muito diferente do que nós imaginávamos. Claramente, o presidente está muito mais interessado em petróleo do que em democracia. Nicolás Maduro a bordo do navio USS Iwo Jima, em foto compartilhada por Trump. REUTERS BBC News Brasil - Quando foi a última vez que os EUA fizeram algo parecido, no Afeganistão em 2001 e no Iraque em 2003? Nelson - Com certeza o elemento de petróleo remete mais ao Iraque do que ao Afeganistão. No fim das contas, no Afeganistão foi um grupo [Al Qaeda] que atacou os Estados Unidos. Acho que nenhuma invasão é justificada. A soberania sempre deve ser primada, mas, se você quiser botar as diferentes invasões americanas em ordem, eu acho que a que seria mais parecida é com certeza a do Iraque, pelo elemento petróleo, pelo elemento injustificado da retirada de governo e presença [americana]

Jan 4, 2026 - 12:00
 0  1
Ataque à Venezuela lembra invasão ao Iraque, diz ex-subsecretária de Defesa dos EUA

REUTERS O aumento das tensões entre Estados Unidos e Venezuela nos últimos meses e da presença militar americana no Caribe levou muitos analistas a acreditarem na possibilidade de uma invasão por terra dos EUA ao território venezuelano — como de fato aconteceu na madrugada de 3 de janeiro de 2026. Mas a decisão americana de permanecer no país e de tomar o controle da indústria do petróleo da Venezuela não estava nos principais cenários de quem acompanhava de perto o assunto. No caso de Jana Nelson, ex-subsecretária de Defesa dos EUA para o Hemisfério Ocidental, havia pelo menos duas razões para que ela não considerasse que o governo de Donald Trump estaria disposto a entrar na Venezuela para explorar o petróleo venezuelano. VEJA TAMBÉM: Netanyahu apoia operação dos EUA na Venezuela Uma é a rejeição do eleitorado do republicano ao envolvimento dos EUA em guerras e mudanças de regime. O outro é a própria situação da indústria petroleira venezuelana, que, segundo ela, foi destruída nas últimas décadas sob Hugo Chávez e Nicolás Maduro. "Todos os três processos, de extração, de refino e de distribuição estão em apuros. Não é algo que simplesmente de um dia para o outro se consegue resolver", ela aponta, em entrevista à BBC News Brasil. Depois de atacar a Venezuela e de capturar Maduro, Trump afirmou que sua gestão tomaria o controle da infraestrutura petroleira do país, que seria recuperada e operada por empresas americanas para que, então, os EUA pudessem vender petróleo venezuelano para outros países. "O argumento é ingênuo, mas esse governo tende a buscar soluções simples para problemas complexos", ela opina. Olhando para o histórico de operações militares em larga escala pelo mundo, Nelson compara o ataque à Venezuela à invasão ao Iraque em 2003: "Pelo elemento petróleo, pelo elemento injustificado da retirada de governo e presença [americana] também". E alerta que o momento atual é muito diferente da última vez em que os EUA invadiram um país da América Latina e retiraram um líder do poder, como aconteceu com Manuel Noriega no Panamá em 1989. "A Venezuela é um país três vezes maior, tanto geograficamente quanto em população. Tem 20 anos de desinstitucionalização do governo", ressalta. "A situação é muito mais grave." Leia, a seguir, a entrevista. Jana Nelson foi subsecretária de Defesa para o Hemisfério Ocidental dos EUA durante a gestão Biden. Acervo pessoal BBC News Brasil - Há menos de um mês a senhora comentou em entrevista que não descartava hipótese de invasão terrestre dos Estados Unidos à Venezuela, o que de fato aconteceu. O anúncio de que os EUA decidiram administrar o país surpreendeu? Jana Nelson - Isso foi uma surpresa. Acho que para todo mundo. A população americana, em particular a base MAGA [Make America Great Again, ou "faça a América grande de novo", em tradução literal] do presidente Trump, tem dito em pesquisas de opinião várias vezes que eles não estão interessados em mudança de regime, eles não estão interessados em maiores guerras. Inclusive eles elegeram o presidente Trump para acabar com guerras. Ele, o próprio presidente Trump, tão orgulhoso de ser um presente da paz... Então a ideia de que os Estados Unidos agora vão não só invadir a Venezuela, como governar o país é realmente uma surpresa para todo mundo. A pergunta que eu acho agora é: como chegamos a esse ponto? A conferência de imprensa que ele [Trump] deu, indicou que ele está negociando com a vice-presidente, Delcy [Rodriguez] em troca de petróleo. Então, os líderes legitimamente eleitos, o Edmundo Gonzalez, com o apoio da Maria Corina Machado — que todos nós assumimos que seriam os próximos líderes da Venezuela, porque, afinal de contas, é o que a população da Venezuela quer —, esses indivíduos aparentemente foram traídos pelo presidente Trump em troca de petróleo, e estamos trocando um governo autoritário do Maduro por outro que agora é da Delcy Rodriguez, a vice-presidente. (Diante de denúncias de fraude eleitoral e de falta de transparência, diversos países não reconheceram o resultado da última eleição presidencial na Venezuela, em que Maduro disse ter sido reeleito, e apontam vitória da oposição) Tudo isso é muito diferente do que nós imaginávamos. Claramente, o presidente está muito mais interessado em petróleo do que em democracia. Nicolás Maduro a bordo do navio USS Iwo Jima, em foto compartilhada por Trump. REUTERS BBC News Brasil - Quando foi a última vez que os EUA fizeram algo parecido, no Afeganistão em 2001 e no Iraque em 2003? Nelson - Com certeza o elemento de petróleo remete mais ao Iraque do que ao Afeganistão. No fim das contas, no Afeganistão foi um grupo [Al Qaeda] que atacou os Estados Unidos. Acho que nenhuma invasão é justificada. A soberania sempre deve ser primada, mas, se você quiser botar as diferentes invasões americanas em ordem, eu acho que a que seria mais parecida é com certeza a do Iraque, pelo elemento petróleo, pelo elemento injustificado da retirada de governo e presença [americana] também — porque agora o presidente Trump diz que vai estar governando a Venezuela. Os Estados Unidos governaram o Iraque por muitos anos. BBC News Brasil - Falando em petróleo, Trump anunciou que os EUA vão administrar a Venezuela, tomar o controle da infraestrutura de petróleo, levar as empresas americanas para assumir e recuperar a infraestrutura e vender petróleo para outros países. Como a gente deve enxergar essa decisão? Nelson - É um pouco ingênua, porque não é tão fácil. A indústria de petróleo da Venezuela foi destruída depois de mais de 15 anos, 20 anos, se você contar o [Hugo] Chávez. Então você tem uma PDVSA, e uma Chevron também, que não produzem nos níveis que deveriam. Você tem um processo de refino que não tem capacidade de absorção a níveis altos e até a própria distribuição do petróleo venezuelano, que era majoritariamente feita através da Citgo, que é uma companhia de gasolina nos Estados Unidos, a Citgo também está em apuros econômicos, vai declarar o capítulo 11 de bancarrota nos Estados Unidos. Então todos os três processos, de extração, de refino e de distribuição estão em apuros. Não é algo que simplesmente de um dia para o outro se consegue resolver. Então o argumento é ingênuo, mas esse governo tende a buscar soluções simples para problemas complexos. Infraestrutura da PDVSA na região de Orinoco: Venezuela tem as maiores reservas de petróleo comprovadas do mundo, mas produz apenas uma fração do que já produziu no passado. REUTERS BBC News Brasil - Trump também falou que não tem medo de colocar "boots on the ground" ("botas no chão", em tradução literal) se necessário, se referindo a uma possível presença militar americana na Venezuela. Qual a possibilidade de as Forças Armadas da Venezuela não aceitarem de bom grado uma presença americana, ou mesmo das milícias organizadas pelo governo Maduro nos últimos anos? Nelson - Se realmente quiser tomar o território venezuelano, o presidente Trump tem a capacidade logística de fazer isso, tanto de força naval quanto de força aérea. A parte do Exército, de presença militar, está ainda aquém do que ele necessitaria para tomar o território venezuelano, mas ele tem a capacidade naval e a capacidade aérea para fazê-lo hoje. E as Forças Armadas venezuelanas não teriam como responder de maneira adequada. A questão realmente é quanto ele quer se dedicar a uma operação militar. Eu não me preocuparia tanto com a resistência do Exército e das Forças Armadas venezuelanas. BBC News Brasil - E em relação a milícias? Alguns venezuelanos têm medo de uma possível guerra civil ou de conflitos internos, alguma coisa que piore ainda mais a situação de quem está lá dentro. Nelson - As milícias estão sob o controle do Diosdado Cabello [atual ministro do Interior]. São entidades de inteligência e de controle civil, que não são polícia, que não são Forças Armadas, que ficam no meio do caminho. São grupos pequenos, controlados por um membro do governo do regime, com a função de acabar com a oposição e de encontrar indivíduos que poderiam ser presos e também torturados. Isso existe. Agora, não são muito organizados, são grupos pequenos. Se você não tiver o Diosdado controlando, esses indivíduos simplesmente vão desaparecer. Um e outro será descoberto e levado à Justiça, mas a maioria vai simplesmente desaparecer com o tempo. Venezuelanos residentes no Chile comemoram captura de Maduro. EPA/Shutterstock BBC News Brasil - Como o restante da América Latina deve encarar o que aconteceu? Rubio falou que, se fosse o governo de Cuba, estaria preocupado nesse momento. Nelson - Olha, eu acho muito pouco provável qualquer outra invasão, porque eles não iam ter justificativa. Com o Maduro já era muito fraca. Por mais que o secretário Rubio não esteja de acordo, a liderança em Cuba é uma liderança que é eleita da maneira que eles fazem suas próprias eleições. Então, expandir esse processo para Cuba ou para qualquer outro país será muito difícil de justificar, tanto domesticamente quanto de apoio internacional. Maduro, em particular, é um líder pária, poucos países apoiavam ele. Inclusive o próprio Brasil tinha mantido uma posição muito neutra, porque, quando Maduro perdeu as eleições por 37% dois anos atrás, ele deixa de ser um líder legítimo da Venezuela. E o Brasil já não reconhecia ele como líder legítimo da Venezuela. Eu acho que o Rubio simplesmente está aproveitando a oportunidade para mandar uma mensagem para Cuba, que, no fim das contas, não vai ter "dentes" para ser implementada. BBC News Brasil - Na sua avaliação, quais as razões por trás da invasão? Nelson - O presidente muito claramente disse que a motivação dele é petróleo. O que ele quer é aumentar a produção petroleira, ter acesso ao petróleo da Venezuela para os Estados Unidos e devolver às companhias que foram expropriadas os seus legítimos, digamos, equipamentos, materiais, etc. Isso foi há 20 anos atrás. Então, assim, se isso é possível, não sei. A única companhia que realmente se beneficiaria seria a Chevron. Então eu imagino que os atuais dirigentes da Chevron estejam muito preocupados em serem associados a esse tipo de ação militar. Mas foi isso que o presidente falou na conferência de imprensa. Eu também acho que há motivações políticas, porque, no fim das contas, vários membros da administração Trump são pessoas que vêm da Flórida. O próprio presidente Trump passa muito tempo na Flórida, e o meio político na Flórida é favorável a uma mudança de regime na Venezuela. Você também tem a questão da migração. Não sei se você percebeu, mas na conferência de imprensa estava o Stephen Miller, que é, essencialmente, o czar de imigração do governo americano. E uma das principais fontes de migrantes até os Estados Unidos tem sido a Venezuela - não só nos Estados Unidos, mas em toda a América Latina. É uma crise migratória gerada pelo Maduro, pela Venezuela. Então o argumento deles é, entre aspas, resolver o problema da Venezuela resolve também ou ajuda a resolver o problema da migração nos Estados Unidos. Manifestante em frente à embaixada dos EUA no México. REUTERS BBC News Brasil - E a questão do aumento da influência americana na região? Quando a Estratégia de Defesa Nacional foi divulgada recentemente falou-se muito sobre isso, por conta da referência à Doutrina Monroe. A gente pode encarar esse episódio como parte desse esforço para aumentar a interferência e a influência americana na América Latina? Nelson - Eu acho que a parte mais preocupante do documento que saiu recentemente continua sendo a falta de interesse [dos EUA] em apoiar a Europa quando eles estão recebendo ameaças da Rússia. [Olhando para a América Latina], claramente, o presidente Trump tem um interesse na região. Ele governa através da nostalgia. Ele é um presidente dos anos 80, no qual as guerras da América Central foram muito presentes. A América Latina e o Caribe foram muito presentes e centrais durante o governo Reagan, durante o auge, digamos, do presidente Trump, quando ele tinha os seus 40 anos, estava Nova York. Foi um momento muito formador da visão de mundo dele. Então ele está trazendo aquele momento de volta para hoje, numa situação muito diferente. Mas eu continuo achando que a parte mais preocupante do documento não é a referência à América Latina. Eu não acho, como já comentei, que ele vai sair invadindo vários países. Não é assim também, ele não pode fazer isso sozinho. Ele precisa do apoio de outras pessoas, e ele não vai ter esse tipo de apoio das pessoas no gabinete dele pra sair invadindo. Então, o que é mais preocupante é deixar a Europa abandonada num momento relativamente fraco, no qual ela não é capaz de se proteger de uma invasão da Rússia — que eu não acredito que seja iminente, mas também não acho que seja improvável. BBC News Brasil - A última vez que os Estados Unidos invadiram um país da América Latina e retiraram o presidente foi em 1989 com o Noriega no Panamá. Como alguém que estuda as incursões militares americanas na região, como a senhora vê o episódio atual? Nelson - O Panamá foi muito diferente, no sentido de que é um país menor, onde a gente já tinha muita presença militar por causa do canal. Nós não precisávamos levar pessoas para lá. E você tinha um governo que podia tomar posse. A Venezuela é um país três vezes maior, tanto geograficamente quanto em população. Tem 20 anos de desinstitucionalização do governo. Não tem um governo que funcione, que no caso o Panamá tinha. Nós estamos tendo que mover pessoas para dentro e nós não temos pessoas suficientes. Embora tenha tido um aumento militar muito grande no Caribe, a gente ainda não tem pessoas, indivíduos suficientes para poder invadir a Venezuela como a gente tinha no caso do Panamá, então, a situação é muito mais grave.

What's Your Reaction?

like

dislike

love

funny

angry

sad

wow

tibauemacao. Eu sou a senhora Rosa Alves este e o nosso Web Portal Noticias Atualizadas Diariamente