Por que resposta do Irã a ataque dos EUA pode ser diferente desta vez
Um grupo de ataque naval liderado pelo porta-aviões USS Abraham Lincoln já teria chegado ao Oriente Médio. Mike Blake/Reuters A chegada do porta-aviões USS Abraham Lincoln à zona de responsabilidade do Comando Central dos EUA, perto das águas do Irã, aprofundou a sensação de que um confronto maior pode estar tomando forma. Em meio à mais extensa e violenta repressão a protestos da história recente do Irã, o destacamento militar enfatiza como Washington e Teerã podem estar próximos de um embate direto, mais do que em qualquer outro momento nos últimos anos. Leia também: As fotos de rostos de centenas de mortos vazadas à BBC em meio a brutal repressão a protestos no Irã Os líderes iranianos se encontram pressionados entre os protestos que exigem, cada vez mais, a derrubada do regime e um presidente americano que mantém suas intenções deliberadamente obscuras, alimentando a ansiedade não só em Teerã, mas em toda a região — que, normalmente, já é marcada pela instabilidade. A resposta do Irã a um possível ataque militar americano pode não seguir o padrão familiar, cuidadosamente calibrado, observado nos confrontos anteriores com Washington. As recentes ameaças do presidente Donald Trump, no contexto da violenta supressão da instabilidade doméstica, vieram em um momento de excepcional tensão interna para a República Islâmica. Por isso, qualquer ataque americano traz, agora, um risco significativamente maior de uma rápida escalada, tanto regionalmente quanto dentro do Irã. Nos últimos anos, Teerã demonstrou preferência por retaliações posteriores, de forma limitada. Após os ataques dos Estados Unidos a instalações nucleares iranianas, em 21 e 22 de junho de 2025, o Irã respondeu no dia seguinte com um ataque com mísseis à Base Aérea de al-Udeid, no Catar, operada pelos Estados Unidos. Segundo o presidente Trump, o Irã havia alertado antecipadamente sobre o ataque, o que permitiu que as defesas antiaéreas interceptassem a maior parte dos mísseis. Nenhuma morte foi registrada. O ataque foi interpretado, de forma geral, como uma tentativa deliberada do Irã de sinalizar sua determinação, mas evitando uma guerra maior. Um padrão similar já havia surgido em janeiro de 2020, durante o primeiro mandato de Donald Trump. No dia 3 de janeiro daquele ano, os Estados Unidos assassinaram o comandante da Força Quds (a unidade de elite da Guarda Revolucionária iraniana), Qassem Soleimani, perto do aeroporto de Bagdá, no Iraque. O Irã retaliou cinco dias depois, disparando mísseis contra a base aérea americana de Ain al-Asad, também no Iraque. Da mesma forma que no ano passado, Teerã alertou com antecedência sobre o ataque. Nenhum militar americano foi morto, mas dezenas relataram posteriormente lesões cerebrais traumáticas. O episódio reforçou a percepção de que o Irã buscava gerenciar a escalada das agressões, em vez de provocá-las. Trump ameaçou atacar o Irã se manifestantes fossem mortos. Reuters Mas o momento atual é muito diferente. O Irã está emergindo de uma das ondas mais sérias de distúrbios domésticos desde a fundação da República Islâmica, em 1979. Os protestos que irromperam no final de dezembro e início de janeiro foram violentamente reprimidos. Organizações de defesa dos direitos humanos e profissionais médicos do país relatam que milhares de pessoas foram mortas e muitas outras ficaram feridas ou foram detidas. É impossível verificar os números exatos, devido à falta de acesso aos dados e a um apagão da internet, mantido por mais de duas semanas. As autoridades iranianas não assumiram a responsabilidade pelas mortes, culpando o que descrevem como "grupos terroristas" e acusando Israel de incentivar os distúrbios. Esta narrativa foi defendida pelos níveis mais altos do Estado iraniano. O secretário do Conselho Nacional Supremo de Segurança do país afirmou recentemente que os protestos devem ser considerados uma continuação da guerra de 12 dias contra Israel, no ano passado. Este enquadramento fornece uma ideia da reação das autoridades, colocando em primeiro lugar a segurança, que pode ter sido usada como justificativa para a escala e a intensidade da repressão. A escala dos protestos nas ruas diminuiu desde então, mas não terminou. As acusações permanecem sem solução e a divisão entre grandes setores da sociedade e o sistema governante raramente pareceu tão ampla. Nos dias 8 e 9 de janeiro, forças de segurança teriam perdido o controle de parte de diversas cidades e de certos bairros das cidades principais. Elas teriam recuperado o controle à força, de forma contundente. Esta rápida perda de controle parece ter inquietado profundamente as autoridades. A calma que se seguiu foi imposta e não negociada, deixando a situação altamente volátil. Retórica inflexível Em um cenário como este, a natureza de qualquer ataque dos Estados Unidos se torna crítica. Um ataque limitado pode permitir a Washington reivindicar sucesso militar, evitando uma guerra regional imediata. Mas também poderá fornecer às autoridades irania

Um grupo de ataque naval liderado pelo porta-aviões USS Abraham Lincoln já teria chegado ao Oriente Médio. Mike Blake/Reuters A chegada do porta-aviões USS Abraham Lincoln à zona de responsabilidade do Comando Central dos EUA, perto das águas do Irã, aprofundou a sensação de que um confronto maior pode estar tomando forma. Em meio à mais extensa e violenta repressão a protestos da história recente do Irã, o destacamento militar enfatiza como Washington e Teerã podem estar próximos de um embate direto, mais do que em qualquer outro momento nos últimos anos. Leia também: As fotos de rostos de centenas de mortos vazadas à BBC em meio a brutal repressão a protestos no Irã Os líderes iranianos se encontram pressionados entre os protestos que exigem, cada vez mais, a derrubada do regime e um presidente americano que mantém suas intenções deliberadamente obscuras, alimentando a ansiedade não só em Teerã, mas em toda a região — que, normalmente, já é marcada pela instabilidade. A resposta do Irã a um possível ataque militar americano pode não seguir o padrão familiar, cuidadosamente calibrado, observado nos confrontos anteriores com Washington. As recentes ameaças do presidente Donald Trump, no contexto da violenta supressão da instabilidade doméstica, vieram em um momento de excepcional tensão interna para a República Islâmica. Por isso, qualquer ataque americano traz, agora, um risco significativamente maior de uma rápida escalada, tanto regionalmente quanto dentro do Irã. Nos últimos anos, Teerã demonstrou preferência por retaliações posteriores, de forma limitada. Após os ataques dos Estados Unidos a instalações nucleares iranianas, em 21 e 22 de junho de 2025, o Irã respondeu no dia seguinte com um ataque com mísseis à Base Aérea de al-Udeid, no Catar, operada pelos Estados Unidos. Segundo o presidente Trump, o Irã havia alertado antecipadamente sobre o ataque, o que permitiu que as defesas antiaéreas interceptassem a maior parte dos mísseis. Nenhuma morte foi registrada. O ataque foi interpretado, de forma geral, como uma tentativa deliberada do Irã de sinalizar sua determinação, mas evitando uma guerra maior. Um padrão similar já havia surgido em janeiro de 2020, durante o primeiro mandato de Donald Trump. No dia 3 de janeiro daquele ano, os Estados Unidos assassinaram o comandante da Força Quds (a unidade de elite da Guarda Revolucionária iraniana), Qassem Soleimani, perto do aeroporto de Bagdá, no Iraque. O Irã retaliou cinco dias depois, disparando mísseis contra a base aérea americana de Ain al-Asad, também no Iraque. Da mesma forma que no ano passado, Teerã alertou com antecedência sobre o ataque. Nenhum militar americano foi morto, mas dezenas relataram posteriormente lesões cerebrais traumáticas. O episódio reforçou a percepção de que o Irã buscava gerenciar a escalada das agressões, em vez de provocá-las. Trump ameaçou atacar o Irã se manifestantes fossem mortos. Reuters Mas o momento atual é muito diferente. O Irã está emergindo de uma das ondas mais sérias de distúrbios domésticos desde a fundação da República Islâmica, em 1979. Os protestos que irromperam no final de dezembro e início de janeiro foram violentamente reprimidos. Organizações de defesa dos direitos humanos e profissionais médicos do país relatam que milhares de pessoas foram mortas e muitas outras ficaram feridas ou foram detidas. É impossível verificar os números exatos, devido à falta de acesso aos dados e a um apagão da internet, mantido por mais de duas semanas. As autoridades iranianas não assumiram a responsabilidade pelas mortes, culpando o que descrevem como "grupos terroristas" e acusando Israel de incentivar os distúrbios. Esta narrativa foi defendida pelos níveis mais altos do Estado iraniano. O secretário do Conselho Nacional Supremo de Segurança do país afirmou recentemente que os protestos devem ser considerados uma continuação da guerra de 12 dias contra Israel, no ano passado. Este enquadramento fornece uma ideia da reação das autoridades, colocando em primeiro lugar a segurança, que pode ter sido usada como justificativa para a escala e a intensidade da repressão. A escala dos protestos nas ruas diminuiu desde então, mas não terminou. As acusações permanecem sem solução e a divisão entre grandes setores da sociedade e o sistema governante raramente pareceu tão ampla. Nos dias 8 e 9 de janeiro, forças de segurança teriam perdido o controle de parte de diversas cidades e de certos bairros das cidades principais. Elas teriam recuperado o controle à força, de forma contundente. Esta rápida perda de controle parece ter inquietado profundamente as autoridades. A calma que se seguiu foi imposta e não negociada, deixando a situação altamente volátil. Retórica inflexível Em um cenário como este, a natureza de qualquer ataque dos Estados Unidos se torna crítica. Um ataque limitado pode permitir a Washington reivindicar sucesso militar, evitando uma guerra regional imediata. Mas também poderá fornecer às autoridades iranianas um pretexto para mais uma rodada de repressão interna. Este cenário apresenta o risco de mais repressão, prisões em massa e uma nova onda de sentenças rigorosas, incluindo condenações à morte, para manifestantes já detidos. No outro extremo, uma campanha militar americana maior, que enfraqueça significativamente ou paralise o Estado iraniano, poderá colocar o país à beira do caos. O súbito colapso da autoridade central em um país com mais de 90 milhões de habitantes dificilmente irá gerar uma transição limpa ou rápida. Pelo contrário. Poderá haver um período de instabilidade prolongada, violência entre facções e prejuízos para toda a região, com consequências que podem perdurar por anos até sua resolução. Estes riscos ajudam a explicar a retórica cada vez mais inflexível de Teerã. Os principais comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica e das Forças Armadas comuns, ao lado das principais autoridades políticas, alertaram que um eventual ataque norte-americano, independentemente da escala, será tratado como um ato de guerra. Estas declarações inquietaram os países vizinhos do Irã, particularmente os Estados do Golfo que mantêm bases americanas no seu território. Uma rápida reação iraniana colocaria esses países, ao lado de Israel, em risco imediato, independentemente do seu envolvimento direto. E isso cria a perspectiva de um conflito que pode se espalhar muito além do Irã e dos Estados Unidos. E Washington também enfrenta restrições. Trump alertou repetidas vezes às autoridades iranianas sobre o uso de violência contra os manifestantes. E, no auge dos distúrbios, o presidente dos Estados Unidos declarou aos iranianos que "a ajuda está a caminho". Estas observações circularam amplamente dentro do Irã e aumentaram a expectativa entre os manifestantes. Os Estados Unidos atacaram instalações nucleares iranianas durante a guerra entre o Irã e Israel, em junho de 2025. Maxar Technologies/EPA via BBC Os dois lados estão conscientes do quadro estratégico como um todo. Donald Trump sabe que o Irã, hoje, é militarmente mais fraco que durante a guerra dos 12 dias. E Teerã está consciente de que o presidente americano tem pouca disposição para um conflito aberto em larga escala. Esta consciência mútua pode oferecer uma certa tranquilidade, mas também poderá criar visões equivocadas e perigosas, com cada lado potencialmente superestimando sua força ou interpretando erroneamente as intenções do seu oponente. Para Trump, é fundamental encontrar o equilíbrio, seja ele qual for. Ele precisa de um resultado que possa apresentar como vitória, sem levar o Irã a um novo ciclo de repressão ou declínio rumo ao caos. Para os líderes iranianos, o perigo está no momento e na percepção. O modelo anterior do Irã, de retaliação simbólica posterior, pode não ser mais suficiente, se seus líderes acreditarem que a rapidez é fundamental para reafirmar a dissuasão no lado externo e o controle dentro do país, abalado pela escala dos distúrbios recentes. Mas uma reação rápida aumentaria em muito o risco de erros de cálculo, levando as forças regionais a um conflito a que poucos podem se permitir. Com os dois lados sob intensas pressões e pouco espaço de manobra, um longo jogo de temeridade política pode estar se aproximando do seu momento mais perigoso. Afinal, o custo de atingir o equilíbrio errado prejudicaria não só os dois governos, mas milhões de iranianos comuns e a região como um todo. Veja os vídeos que estão em alta no g1
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