Preso na Farra do INSS mandou R$ 300 mil a investigada na CPI da Covid

Samuel Chrisostomo, contador da Conafer, transferiu o montante via Pix para a empresa BSF Gestão de Saúde, investigada na CPMI da Covid-19

Jan 4, 2026 - 03:30
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Preso na Farra do INSS mandou R$ 300 mil a investigada na CPI da Covid

Uma empresa em nome de Samuel Chrisostomo, contador da Confederação Nacional dos Agricultores e Empreendedores Familiares (Conafer) – uma das instituições envolvidas no caso que ficou conhecido como a Farra do INSS, transferiu R$ 300 mil, via Pix, à BSF Gestão de Saúde – companhia que foi investigada na CPMI da Covid-19, em 2021, por suspeitas de irregularidades em contratos com o Ministério da Saúde.

A empresa em questão é a Cifrão Tecnologia, um dos vários CNPJs criados por Samuel – preso por envolvimento nos descontos indevidos, e que opera em um sobrado localizado no Distrito Federal (foto em destaque). O Metrópoles apurou que no mesmo endereço também estão localizadas companhias da sócia de outra ONG investigada na fraude do INSS: a Associação de Aposentados do Brasil (AAB).

Segundo um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) enviado à CPMI do INSS e obtido pela reportagem, a Cifrão Tecnologia transferiu o montante à BSF logo após receber R$ 1,6 milhão da Conafer, em outubro de 2023.

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Na mesma data, 60 outras transferências imediatas saíram das contas da empresa. Entre elas está um Pix de R$ 150 mil para a JSM Serviços, R$ 100 mil para N & C Distribuidora de Agropecuários e R$ 22 mil à Lucineide dos Santos Oliveira, a sócia da AAB.

No mesmo período Samuel também transferiu R$ 525 mil para a Solution BRB Nova, uma segunda empresa pertencente a ele.

A Cifrão, de acordo com o Coaf, trata-se de uma microempresa que exerce atividade de desenvolvimento de programas de computador, com faturamento de R$ 11.240,86. “No mês em análise, mesmo com nova atualização cadastral, movimentou aproximadamente R$ 1.625.759,14 a mais do que a capacidade declarada”, diz o documento.

A BSF Gestão de Saúde, por sua vez, é uma empresa focada em consultoria e gestão de benefícios em saúde, especialmente planos de medicamentos e assistência farmacêutica.

Os repasses à vista, imediatos, além da movimentação exorbitante da Cifrão alertou órgãos de fiscalização que não conseguiram identificar explicação para as transferências, levantando suspeita de ser uma empresa laranja.

Falso Negativo

No relatório encaminhado à CMPI do INSS, o Coaf descreve a BSF como uma companhia indiretamente ligada à Precisa Comercialização de Medicamentos Ltda. – que se tornou alvo de uma investigação do MPDFT, no âmbito da Operação Falso Negativo.

À época, a operação investigou o envolvimento da Precisa em um esquema atuante na Secretaria de Saúde do DF responsável por desvio de verbas públicas, fraude em licitações e superfaturamento na compra de testes de Covid-19.

Segundo a CPI da Pandemia e o Coaf, o sócio da Precisa, Francisco Emerson Maximiano, é “acusado de movimentar R$ 50 milhões com indícios de lavagem de dinheiro através de suas empresas, incluindo a BSF Gestão”.

Francisco e a Precisa Medicamentos também tornaram-se alvos de uma investigação do MPF, suspeitos de envolvimento em irregularidades na aquisição da vacina indiana Covaxin pelo governo, no valor de R$ 1,6 bilhão.

No relatório também é apontada ligação direta entre a BSF e a Global Gestão em Saúde S.A. – que tornou-se ré na Justiça sob acusação de ter sido beneficiada por um esquema de fraudes e irregularidades em sua prestação de serviços de fornecimento de remédios para o tratamento de doenças raras.

Por fim, o Coaf mencionou, no relatório, que a BSF Gestão, a Global e Francisco foram alvos da PF na Operação Pés de Barro, suspeitos de integrarem um esquema de fraudes na aquisição de medicamentos de alto custo pelo Ministério da Saúde, entre 2016 e 2018, além de estelionato, falsidade ideológica e corrupção.

Repasse a lobista

No documento encaminhado a CPMI do INSS, uma movimentação envolvendo o lobista Danilo Berndt Trento também foi identificada.

O relatório apontou uma transferência de R$ 100 mil feito por Lucineide dos Santos Oliveira, sócia da AAB, por meio da empresa Impacto Serviços de Apoio Adm, cuja sede fica no mesmo endereço da empresa de Samuel Chrisostomo.

O depósito foi feito na conta de Danilo no banco BK Bank- instituição investigada por supostamente lavar dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC).

Em 9 de outubro, Danilo Berndt Trento foi convocado pela CPMI do INSS para prestar depoimento. Segundo a Polícia Federal, o empresário teria atuado em conjunto como o ex-procurador-geral do INSS, Virgílio Antônio de Oliveira Filho, para desviar dinheiro das aposentadorias por meio de descontos irregulares nos benefícios

Daniel, no entanto, não é novato em investigações do Congresso. Em 2021, foi alvo da CPI da Covid-19, do Senado Federal, que apurou suspeitas de corrupção e ineficiência do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na gestão da pandemia.

Trento era então diretor da Precisa Medicamentos, que intermediou a compra da vacina Covaxin pelo Ministério da Saúde. Ao final das apurações, a CPI da Covid pediu o indiciamento dele, por fraude em contrato, improbidade administrativa e formação de quadrilha.

Segundo informações do Relatório de Inteligência Financeira (RIF) de Trento, obtidos pela coluna Andreza Matais, do Metrópoles, o homem recebeu R$ 11,6 milhões de uma empresa chamada T5 Participações LTDA – a maior fonte pagadora dele.

A empresa T5 foi constituída em março de 2020 como uma hamburgueria em Cidade Monções (bairro da Zona Norte de São Paulo), chamada “Burgueragem”. O investimento inicial era de apenas R$ 20 mil.

Em novembro de 2022, a empresa foi adquirida por Danilo Berndt Trento, que mudou a finalidade da companhia, aumentou o capital social para R$ 1 milhão e alterou o endereço do empreendimento – os sócios originais deixaram a empresa nesse momento.

Em março de 2024, Trento saiu da sociedade e deixou como única sócia uma mulher chamada Francine da Rosa, a mesma que aparece como sócia administradora da BSF Gestão de Saúde.

Francine vive em uma casa simples em Tubarão (SC). Era beneficiária do Bolsa Família e, depois, do Auxílio Brasil, até dezembro de 2022. Formalmente, é a única dona da empresa que pagou R$ 11,6 milhões a Danilo Berndt Trento

O outro lado

O Metrópoles tentou contatar os citados, mas não obteve retorno até a última atualização do texto. O espaço segue aberto para futuras manifestações.

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