EUA ou Irã: quem vencerá o jogo de resistência no Estreito de Ormuz?

Bloqueio naval dos EUA ao Estreito de Ormuz já dura mais de um mês. Foto: U.S. Navy/Planet Pix/ZUMA/picture alliance Em impasse, disfuncional e perigoso. É assim que a disputa no Estreito de Ormuz vem sendo cada vez mais descrita. Próximo de seu quarto mês, a crise ao largo da costa do Irã é marcada por bloqueios mútuos. Teerã vem cobrando dos navios até dois milhões de dólares pela passagem segura pelo estreito, enquanto os Estados Unidos impõem um bloqueio naval, fazendo recuar embarcações que transportam exportações de petróleo iraniano. Esses bloqueios concorrentes não conseguiram produzir resultados decisivos. Alguns navios iranianos continuam conseguindo passar, enquanto algumas empresas de navegação asiáticas concordam em pagar pedágios, apesar de tais taxas violarem o direito marítimo internacional. As frágeis negociações entre EUA e Irã para reabrir o Estreito de Ormuz, por sua vez, vêm tropeçando várias vezes, aumentando o risco de uma escalada para um conflito regional mais amplo. Quem cederá primeiro? Apesar dos esforços de mediação liderados peloPaquistão e de um memorando de uma página proposto para encerrar as hostilidades e reabrir o Estreito de Ormuz, nenhum dos lados parece disposto a recuar primeiro. Dania Thafer, diretora executiva do think tank Gulf International Forum (GIF), com sede em Washington, acredita que as ameaças militares intermitentes do presidente americano Donald e Trump — destinadas a aumentar sua influência sobre o Irã — podem ter tido o efeito contrário. "A resposta iraniana sugere o contrário", disse Thafer à DW. "Eles interpretam isso como falta de vontade dos EUA de escalar a guerra". Trump enfrenta crescente pressão interna e externa para evitar novas ações militares, com aliados do Golfo como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar pedindo moderação. A alta dos preços do petróleo e o aumento da inflação doméstica estão intensificando a pressão política antes das eleições legislativas de meio de mandato nos EUA, em novembro. Receitas petrolíferas do Irã diminuem rapidamente Enquanto isso, o Irã está perdendo cerca de 435 milhões de dólares por dia em comércio, quase dois terços provenientes de exportações, principalmente de petróleo bruto, estimou Miad Maleki, pesquisador sênior da Foundation for Defense of Democracies (FDD), em abril. Isso significa que, com o bloqueio dos EUA chegando a 40 dias neste sábado (23/05), as finanças públicas iranianas já sofreram uma perda estimada de 17 bilhões de dólares. Segundo Maleki, isso se soma a cerca de 144 bilhões de dólares em danos econômicos causados por ataques de EUA e Israel nas primeiras semanas da guerra. Burcu Ozcelik, pesquisadora sênior do Royal United Services Institute (RUSI), com sede em Londres, acredita que o Irã pode ter obtido uma "vantagem desproporcional" com seus ataques com mísseis a navios e vizinhos do Golfo, mas agora está sendo "duramente atingido" pela interrupção de suas próprias exportações de petróleo. "Apesar da retórica de Teerã sobre a resiliência do regime, sua economia não é à prova de bloqueios", disse Ozcelik à DW. Estados do Golfo presos no fogo cruzado Especialistas descrevem o impasse como um perigoso jogo de espera. Tanto os EUA quanto o Irã acreditam ter o tempo a seu favor. No entanto, os Estados do Golfo são muito mais avessos ao risco e economicamente expostos. A frustração com o impasse transformou-se em pressão coordenada por uma solução diplomática. Ospaíses do Golfo instaram Trump a suspender planos de novos ataques e dar mais tempo às negociações. Em privado, eles alertaram que um conflito congelado colocaria em risco planos de transição de suas economias para longe dos combustíveis fósseis. Os Estados do Golfo estão investindo centenas de bilhões de dólares em ambiciosos projetos industriais e turísticos. Eles apoiam fortemente as negociações mediadas pelo Paquistão e uma iniciativa conjunta EUA–ONU para reabrir o Estreito sem pedágios iranianos ou reivindicações de controle. Centenas de navios-tanque e cargueiros aguardam a reabertura total do Estreito de Ormuz Foto: Majid Asgaripour/WANA/REUTERS Irã busca hegemonia de segurança regional Como uma potência que se vê remodelando o Oriente Médio, o Irã também está usando a guerra para buscar ganhos de longo prazo. Thafer, do GIF, acredita que as ambições iranianas vão muito além de vencer a guerra e buscam "virar a ordem regional a seu favor" no longo prazo. "Eles querem que os Estados do Golfo expulsem os EUA e coloquem a região sob um arcabouço de segurança iraniano", disse ela à DW, acrescentando que essa abordagem não é do interesse dos países do Golfo, apesar de suas frustrações com Washington. Embora continue cautelosamente otimista quanto a um avanço nas negociações, Washington insiste na reabertura total do Estreito, no fim de toda atividade de enriquecimento nuclear do Irã e em nenhum alívio de sanções sem grandes concessões por parte do Irã. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, alertou que a ação

May 23, 2026 - 10:00
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EUA ou Irã: quem vencerá o jogo de resistência no Estreito de Ormuz?

Bloqueio naval dos EUA ao Estreito de Ormuz já dura mais de um mês. Foto: U.S. Navy/Planet Pix/ZUMA/picture alliance Em impasse, disfuncional e perigoso. É assim que a disputa no Estreito de Ormuz vem sendo cada vez mais descrita. Próximo de seu quarto mês, a crise ao largo da costa do Irã é marcada por bloqueios mútuos. Teerã vem cobrando dos navios até dois milhões de dólares pela passagem segura pelo estreito, enquanto os Estados Unidos impõem um bloqueio naval, fazendo recuar embarcações que transportam exportações de petróleo iraniano. Esses bloqueios concorrentes não conseguiram produzir resultados decisivos. Alguns navios iranianos continuam conseguindo passar, enquanto algumas empresas de navegação asiáticas concordam em pagar pedágios, apesar de tais taxas violarem o direito marítimo internacional. As frágeis negociações entre EUA e Irã para reabrir o Estreito de Ormuz, por sua vez, vêm tropeçando várias vezes, aumentando o risco de uma escalada para um conflito regional mais amplo. Quem cederá primeiro? Apesar dos esforços de mediação liderados peloPaquistão e de um memorando de uma página proposto para encerrar as hostilidades e reabrir o Estreito de Ormuz, nenhum dos lados parece disposto a recuar primeiro. Dania Thafer, diretora executiva do think tank Gulf International Forum (GIF), com sede em Washington, acredita que as ameaças militares intermitentes do presidente americano Donald e Trump — destinadas a aumentar sua influência sobre o Irã — podem ter tido o efeito contrário. "A resposta iraniana sugere o contrário", disse Thafer à DW. "Eles interpretam isso como falta de vontade dos EUA de escalar a guerra". Trump enfrenta crescente pressão interna e externa para evitar novas ações militares, com aliados do Golfo como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar pedindo moderação. A alta dos preços do petróleo e o aumento da inflação doméstica estão intensificando a pressão política antes das eleições legislativas de meio de mandato nos EUA, em novembro. Receitas petrolíferas do Irã diminuem rapidamente Enquanto isso, o Irã está perdendo cerca de 435 milhões de dólares por dia em comércio, quase dois terços provenientes de exportações, principalmente de petróleo bruto, estimou Miad Maleki, pesquisador sênior da Foundation for Defense of Democracies (FDD), em abril. Isso significa que, com o bloqueio dos EUA chegando a 40 dias neste sábado (23/05), as finanças públicas iranianas já sofreram uma perda estimada de 17 bilhões de dólares. Segundo Maleki, isso se soma a cerca de 144 bilhões de dólares em danos econômicos causados por ataques de EUA e Israel nas primeiras semanas da guerra. Burcu Ozcelik, pesquisadora sênior do Royal United Services Institute (RUSI), com sede em Londres, acredita que o Irã pode ter obtido uma "vantagem desproporcional" com seus ataques com mísseis a navios e vizinhos do Golfo, mas agora está sendo "duramente atingido" pela interrupção de suas próprias exportações de petróleo. "Apesar da retórica de Teerã sobre a resiliência do regime, sua economia não é à prova de bloqueios", disse Ozcelik à DW. Estados do Golfo presos no fogo cruzado Especialistas descrevem o impasse como um perigoso jogo de espera. Tanto os EUA quanto o Irã acreditam ter o tempo a seu favor. No entanto, os Estados do Golfo são muito mais avessos ao risco e economicamente expostos. A frustração com o impasse transformou-se em pressão coordenada por uma solução diplomática. Ospaíses do Golfo instaram Trump a suspender planos de novos ataques e dar mais tempo às negociações. Em privado, eles alertaram que um conflito congelado colocaria em risco planos de transição de suas economias para longe dos combustíveis fósseis. Os Estados do Golfo estão investindo centenas de bilhões de dólares em ambiciosos projetos industriais e turísticos. Eles apoiam fortemente as negociações mediadas pelo Paquistão e uma iniciativa conjunta EUA–ONU para reabrir o Estreito sem pedágios iranianos ou reivindicações de controle. Centenas de navios-tanque e cargueiros aguardam a reabertura total do Estreito de Ormuz Foto: Majid Asgaripour/WANA/REUTERS Irã busca hegemonia de segurança regional Como uma potência que se vê remodelando o Oriente Médio, o Irã também está usando a guerra para buscar ganhos de longo prazo. Thafer, do GIF, acredita que as ambições iranianas vão muito além de vencer a guerra e buscam "virar a ordem regional a seu favor" no longo prazo. "Eles querem que os Estados do Golfo expulsem os EUA e coloquem a região sob um arcabouço de segurança iraniano", disse ela à DW, acrescentando que essa abordagem não é do interesse dos países do Golfo, apesar de suas frustrações com Washington. Embora continue cautelosamente otimista quanto a um avanço nas negociações, Washington insiste na reabertura total do Estreito, no fim de toda atividade de enriquecimento nuclear do Irã e em nenhum alívio de sanções sem grandes concessões por parte do Irã. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, alertou que a ação militar continua sendo uma opção caso o Irã não ceda em alguns pontos. "O desafio é que não existe um alvo mágico que os EUA possam atingir que leve imediatamente à rendição do regime", disse Ozcelik à DW. "Se a infraestrutura civil for atingida, isso pode levar Teerã a executar uma retaliação mais severa contra os Estados do Golfo". Entre os iranianos, sofrimento aumenta Teerã mantém que permanecerá firme, apesar das crescentes dificuldades enfrentadas pela população iraniana, que provavelmente não irão diminuir tão cedo. "As várias propostas de Teerã para cobrar taxas de trânsito pelo Estreito de Ormuz ou por cabos submarinos indicam que algumas vozes pragmáticas percebem que a economia iraniana e sua população enfrentarão um período prolongado de dificuldades, mesmo que o alívio de sanções seja de alguma forma acordado", disse Ozcelik. A inflação anual no Irã já ultrapassou 54%, com preços de alguns alimentos mais que dobrando. Um apagão nacional da internet já dura mais de 80 dias, isolando ainda mais os cidadãos e prejudicando a vida cotidiana. "Enquanto Trump vê isso [vencer a guerra] como parte de seu legado presidencial, os iranianos encaram como uma questão de sobrevivência do regime e do futuro do seu país", concluiu Thafer.

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