Mês do Meio Ambiente: os 92 anos de um guardião do Cerrado
Conheça Eugênio Giovenardi e o Sítio das Neves, primeira área de Cerrado do DF a se transformar em reserva particular de patrimônio nacional
Com as mãos unidas em forma de concha, o homem de cabelos brancos e chapéu tipo bucket se posta, acocorado, diante do curso d’água. O encontro com a nascente é repleto de intimidade. Enquanto o líquido fresco e límpido escorre entre os dedos, ele sorri com o orgulho de quem dedica a vida ao futuro do planeta.
Se tal aquífero existe, é porque o guardião da natureza investiu tempo e esforço em décadas de trabalho em nome do Cerrado. “A água faz parte da vida, pois foi da água que nascemos. A natureza é a casa de todos os seres vivos“, ensina.
Quiseram os deuses da floresta que o mês do Meio Ambiente — em 2026, de seca “chuvosa” no Distrito Federal — fosse celebrado no mesmo junho em que nasceu Eugenio Giovanardi. O protetor do bioma tipicamente brasiliense completa 92 anos neste domingo (28/6), tendo a conservação do ecossistema como presente.
“Há um misto de prazer, satisfação e uma espécie de dever cumprido com a natureza”, celebra Eugênio.
Ex-seminarista, o gaúcho de Casca é escritor, filósofo, teólogo, cientista social e ecossociólogo. Também consultor aposentado da Organização Internacional do Trabalho e membro da Associação Nacional de Escritores.
Todo esse conhecimento, emprestado a 32 livros escritos e publicados, é colocado em prática também no cuidado com a natureza.
A vida dedicada à preservação se confunde com a do Sítio das Neves. Impossível contar a história deste homem sem detalhar a reconstrução natural da área de 70 hectares próxima à BR-060, na divisa entre o Distrito Federal e Goiás. É ela quem torna Eugênio um guardião do Cerrado.
O caminho das águas
A simbiose perfeita entre homem e natureza começa em 1974, dois anos após a chegada de Eugênio Giovenardi, a esposa, a jornalista e tradutora finlandesa Hilkka Mäki, e a filha, Aino Alexandra, a Brasília. É quando a família compra a área escriturada apenas como Neves.
“Parecia uma área deixada ao fogo, ao carvão e ao pisoteio de gado. Mas o que tinha de importante era o Ribeirão das Lages, que passa nos fundos. E havia dois pequenos córregos que abasteciam esse ribeirão, só que, em algum momento, eles secavam. Percebi que alguma coisa estava faltando para ajudar este pedaço de terra a se recompor”, explica.
A inspiração para a revitalização da área veio de Os Sertões, de Euclides da Cunha, livro que Eugênio lia à época. “Nele, eu aprendi que os romanos, há 3 mil anos, guardavam as águas da chuva nos oásis da Tunísia para produzir trigo às padarias de Roma. Então, meu deu um estalo: água”, conta.
Naquele momento, o gaúcho aprendia que a paisagem do Cerrado tinha duas “caras”, como ele refere: uma úmida, de outubro a março; e outra seca, de abril a outubro. “Ligando este fenômeno com a Tunísia e os romanos, encontrei a solução disto aqui. Mais adiante um pouco, tive a informação fundamental sobre o que significava o Cerrado em relação ao resto do país: era a caixa d’água do Brasil”, ressalta.
Eugênio, então, após consultar especialistas e autores especializados em conservação do meio ambiente, colocou em prática o plano que faria renascer o Sítio das Neves.
Encontrou na região oito canais de esgotamento de água da chuva e construiu pequenas barragens no declive do terreno, uma a cada 5 metros. Criou, assim, um caminho das águas, conectando-o como se fosse um leito.
“Com um ano, talvez dois, percebemos a diferença que existia entre conservar a água da chuva ou deixá-la ir embora. Passados 20, 30 anos, insistindo na montagem dessas pequenas barragens, duas nascentes intermitentes voltaram a ser perenes no período seco. As árvores demonstraram certa alegria com aquilo que elas têm de maior importância, que é a recarga dos aquíferos, ou seja, dos lagos que estão por baixo dos nossos pés”, comemora.
Área de proteção perpétua
Com a proteção de nascentes e a revitalização de toda a área, o Sítio das Neves tornou-se um lugar de natureza e biodiversidade exuberantes. Abriga mais de 360 espécies vegetais, entre lenhosas, frutíferas e gramíneas.
A fauna também encontrou por ali um ambiente seguro, capaz de proliferar e proteger diversas aves, serpentes, insetos e mamíferos, como tamanduá-bandeira, ariranha, paca e bugio.
Em 2023, quase 50 anos depois da chegada de Eugênio e família ao terreno às margens da BR-060, o Instituto Brasília Ambiental (Ibram) e a Secretaria do Meio Ambiente do Distrito Federal transformaram o Sítio das Neves na primeira área de Cerrado do DF em reserva particular do patrimônio nacional, em caráter perpétuo.
O título, no entanto, não parou a luta de Eugênio Giovenardi, hoje avô de dois netos, na revolução ecológica.
“Faltam políticas ambientais, temos apenas leis ambientais. Temos de fazer os biomas se conservarem entre si. Faça a sua parte. Salve o Cerrado, e o Cerrado salvará, com certeza, a nossa casa comum”, educa o ecossociólogo.
Mês do Meio Ambiente
A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) criou o Dia Mundial do Meio Ambiente em 1972. A data marca a abertura da Conferência Mundial de Meio Ambiente, em Estocolmo, na Suécia.
É celebrada de várias maneiras em todo o mundo para chamar a atenção à urgente necessidade de se adotar um modelo de desenvolvimento sustentável.
O Dia Mundial do Meio Ambiente ficou estabelecido em 5 de junho.
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