Prática de atividade física no mundo se mantém estagnada há 20 anos
Países têm políticas de incentivo aos exercícios, mas falta de mudanças estruturais limita avanços e mantém sedentarismo em alta
Apesar dos esforços para incentivar a prática de exercícios em diversos países, os níveis de atividade física permanecem praticamente inalterados há duas décadas. Hoje, um em cada três adultos e 20% dos adolescentes não atingem a recomendação mínima de 150 minutos semanais de prática moderada, conforme orienta a Organização Mundial da Saúde (OMS). O cenário contribui para milhões de mortes por ano e para o avanço de doenças crônicas.
A conclusão vem de um estudo recém-publicado na revista Nature health. Liderada por pesquisadores da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, a pesquisa analisou documentos de 200 países datados de 2004 a 2025. Nesse período, a maioria das nações implementou políticas de incentivo a uma vida mais ativa, mas sem impacto relevante nos níveis de atividade.
Os autores destacam que, embora o sedentarismo tenha efeito comparável ao tabagismo e à obesidade, ele ainda recebe menos atenção.
“O artigo aborda um paradoxo que já está bem estabelecido na literatura, um cenário que evidencia o desalinhamento entre o que já sabemos, do ponto de vista científico, e o que de fato conseguimos implementar em escala populacional”, analisa o profissional de educação física Everton Crivoi, do Espaço Einstein de Esporte e Reabilitação, do Einstein Hospital Israelita. “Não falta evidência sobre os benefícios da atividade física, mas priorização real e de capacidade de execução.”
O artigo revela que muitos países possuem políticas formais de estímulo que, na prática, são pouco operacionais; faltam metas claras, financiamento estruturado e definição de responsabilidades.
“Em muitos casos, a atividade física parece ocupar um lugar de ‘prioridade crescente, porém baixa’, que seria mais associada à produção de relatórios com dados bonitos para indicadores globais do que à transformação concreta e real do comportamento da população”, avalia Everton Crivoi, que é doutor em Ciências do Esporte.
Assim, a atividade física acaba sendo uma escolha individual em função da consciência de cada pessoa sobre seus benefícios, como reduzir risco cardiovascular ou melhorar saúde mental. Mas isso tem um impacto limitado no comportamento em geral. “Na “Na prática, a adesão parece estar muito mais relacionada ao ambiente e à facilidade do que à informação”, observa Crivoi.
Políticas que modificam o ambiente e tornam a prática de atividade física parte natural da rotina tendem a ter mais impacto do que aquelas baseadas apenas em campanhas educativas. Por isso, mudanças no contexto urbano, como morar próximo ao transporte público, podem aumentar o nível de atividade diária.
“Há pessoas que passaram de 2 mil passos diários para 7 mil passos apenas com a mudança do carro para o transporte público. Precisamos mudar o ambiente e tornar as cidades caminháveis, seguras e com boa mobilidade”, defende o especialista.
O estudo dos EUA não analisou quais políticas efetivamente funcionaram, em quais contextos e por quê. “Além disso, aspectos como diferenças culturais e desigualdades socioeconômicas, que influenciam diretamente o comportamento, aparecem de forma limitada”, analisa Everton Crivoi.
Ainda assim, o especialista avalia que o trabalho reforça uma mensagem importante. “Não estamos mais na fase de discutir se a atividade física é relevante, mas sim como transformar esse conhecimento em ação concreta, em escala populacional. E isso depende muito mais de decisões estruturais, organização de sistemas e integração entre setores do que de novas evidências científicas”, observa.
What's Your Reaction?