Discriminação afeta tratamento de câncer em pessoas LGBTQIAPN+
Preconceito e falta de preparo profissional contribuem para diagnósticos mais tardios e menor adesão à terapia oncológica
A população LGBTQIAPN+ enfrenta diferentes formas de violência e discriminação, que não se restringem a episódios de preconceito relacionados à orientação sexual ou à identidade de gênero, mas também se manifestam no acesso a espaços e serviços essenciais, incluindo os de saúde. Como consequência, a experiência dessas pessoas com o adoecimento e o cuidado tende a ser marcada por desafios que podem influenciar desde a busca por atendimento até diagnóstico, tratamento e acompanhamento de doenças como o câncer.
Uma revisão de literatura publicada em 2025 na Revista Brasileira de Cancerologia identificou as dificuldades que indivíduos LGBTQIAPN+ encaram no acesso e na qualidade dos serviços de assistência oncológica.
“As principais fragilidades estão associadas à formação dos profissionais de saúde, cujos cursos geralmente abordam a saúde LGBTQIAPN+ de forma superficial”, destaca o enfermeiro Cremilson de Paula Silva, mestrando na Universidade Federal de Alfenas (Unifal), em Minas Gerais, e primeiro autor da pesquisa. “Também há escassez de atividades práticas e experiências clínicas supervisionadas que permitam aos estudantes desenvolver competências para um cuidado mais inclusivo, ético e culturalmente sensível.”
O distanciamento entre essa comunidade e os médicos é particularmente preocupante quando se fala de neoplasias. “A conexão entre discriminação, afastamento dos serviços de saúde e diagnóstico tardio de câncer é direta e muito bem documentada”, ressalta a oncologista clínica Ana Paula Garcia Cardoso, do Einstein Hospital Israelita. “Quando uma pessoa evita consultas e exames preventivos por medo do preconceito, ela aumenta significativamente a chance de descobrir a doença já em estágio avançado.”
Essa realidade foi evidenciada em estudo publicado em 2023 na revista JAMA Oncology. Conduzida em um centro médico dos Estados Unidos, a investigação demonstrou que mulheres lésbicas ou bissexuais e homens transgênero demoram cerca de 64 dias para receber o diagnóstico de câncer de mama, contados a partir do início da manifestação dos primeiros sintomas.
Entre pacientes cisheteronormativos, essa média é de 34 dias. Os autores notaram ainda que o grupo formado por minorias sexuais e de gênero tende a recusar com maior frequência os tratamentos recomendados por oncologistas e a apresentar uma taxa de recorrência da doença três vezes maior.
Esses resultados não são exceção. Uma pesquisa brasileira publicada na revista Clinics em 2023, conduzida com cerca de 6.700 participantes com mais de 50 anos, revela que pessoas LGBTQIAPN+ realizam menos exames preventivos fundamentais para a detecção precoce de câncer de mama.
Entre mulheres heterossexuais, 74% relataram já ter realizado mamografia; entre as lésbicas, o índice caiu para 40%. O rastreamento de câncer de colo do útero e colorretal também foi significativamente inferior nesse grupo.
Homens trans que mantêm o colo do útero continuam precisando fazer rastreamento para papilomavírus humano (HPV) e câncer cervical. Mulheres trans que desenvolveram tecido mamário por meio da terapia hormonal precisam realizar mamografia e, mesmo aquelas que passaram por cirurgia de redesignação sexual, continuam tendo risco de câncer de próstata e, portanto, precisam passar pelo exame de toque retal. Daí por que o atendimento de uma pessoa LGBTQIAPN+ deve considerar seu histórico.
“Devido à LGBTQIAPN+fobia, ao estresse de minoria e às dificuldades de acesso aos serviços de saúde, muitas pessoas acabam mais expostas a fatores de risco associados a diferentes tipos de câncer, como tabagismo, álcool e sedentarismo”, observa o geriatra Milton Crenitte, professor da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), em São Paulo, e autor da pesquisa brasileira publicada na Clinics.
Além disso, mesmo na comunidade LGBTQIAPN+, alguns grupos tendem a sofrer mais violências e ser pior atendidos do que outros. “Raça, renda, local de moradia e presença de comorbidades se cruzam e potenciam determinantes e marcadores sociais da diferença”, pontua Crenitte.
Muitas vezes, esses pacientes chegam ao consultório com sofrimento acumulado e diante de um sistema que não sabe exatamente como acolhê-los. Então, o desafio clínico não é apenas tratar o tumor, mas também criar um ambiente de cuidado no qual essas pessoas se sintam seguras o suficiente para serem quem são e receberem um tratamento digno.
Jornada contra o câncer (e o preconceito)
A ausência de uma rede de apoio deve ser considerada logo no início dos cuidados. Muitos pacientes LGBTQIAPN+ chegam ao tratamento com vínculos familiares fragilizados ou rompidos por processos de rejeição.
“A população LGBTQIAPN+ apresenta taxas mais altas de depressão, ansiedade e ideação suicida comparada à população geral. Quando o diagnóstico de câncer acontece, todo esse sofrimento pode ser potencializado”, observa Ana Paula Cardoso.
O adoecimento mental não tratado impacta diretamente na adesão, na resposta terapêutica e na qualidade de vida durante o tratamento oncológico.
Além dos desafios psicossociais, existem particularidades clínicas que exigem abordagens individualizadas. Homens trans, por exemplo, podem manter tecido mamário residual mesmo após cirurgias de afirmação de gênero, o que demanda estratégias específicas de rastreamento e acompanhamento.
Já mulheres trans com câncer de próstata podem apresentar níveis hormonais modificados pela harmonização, influenciando a interpretação de exames e algumas decisões terapêuticas.
“As cirurgias, a quimioterapia, a imunoterapia e grande parte dos tratamentos oncológicos seguem os mesmos princípios utilizados para qualquer paciente. No entanto, aspectos relacionados à saúde hormonal, aos efeitos adversos, à sexualidade e ao acompanhamento longitudinal precisam ser individualizados e discutidos de forma respeitosa e acolhedora”, destaca a oncologista.
No Einstein, grupos multidisciplinares vêm trabalhando para compreender melhor as necessidades específicas da população LGBTQIAPN+, desenvolvendo protocolos, materiais educativos e treinamentos voltados à construção de um cuidado cada vez mais inclusivo, seguro e baseado em evidências.
No contexto nacional, porém, faltam protocolos de tratamento e políticas públicas voltadas a esse grupo. “A produção científica brasileira sobre o tema ainda é limitada quando comparada à de outros países”, aponta Cremilson Silva. “Observamos uma carência significativa de estudos epidemiológicos para compreender a incidência dos diferentes tipos de câncer nessa população.”
Atualizar prontuários, capacitar profissionais, criar ambientes acolhedores, fortalecer políticas de enfrentamento à discriminação e incluir a comunidade LGBTQIAPN+ na construção de protocolos e estratégias assistenciais são medidas fundamentais para tornar o sistema de saúde mais equitativo. Ainda assim, esses avanços representam apenas os primeiros passos de uma mudança estrutural necessária.
“No fundo, quando estamos discutindo essas mudanças, estamos falando sobre formas de garantir acesso digno ao cuidado, incluindo diagnóstico precoce, adesão ao tratamento e resultados melhores para os pacientes. Ninguém deveria precisar escolher entre preservar sua dignidade e procurar atendimento médico”, afirma Ana Paula Cardoso.
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