Mergulhador morre de doença da descompressão nas Maldivas; entenda o que acontece no corpo
Mohamed Mahudhee morreu durante operação de resgate de mergulhadores italianos nas Maldivas. Reprodução/@MMuizzu via X O sargento-mor Mohamed Mahudhee mergulhava a dezenas de metros de profundidade nas Maldivas quando o corpo começou a trair. Ele participava das buscas por quatro italianos desaparecidos em cavernas submarinas no Atol de Vaavu quando desenvolveu a doença da descompressão e não resistiu. A condição é um dos riscos mais conhecidos do mergulho profundo. Ela acontece quando o mergulhador sobe à superfície rápido demais e o organismo não consegue eliminar os gases acumulados durante o tempo submerso. O resultado pode ser uma embolia gasosa fatal. O que muda no corpo quando você está embaixo d'água Ao nível do mar, o corpo humano vive sob uma pressão equivalente a uma atmosfera. A cada dez metros de profundidade, essa pressão aumenta uma atmosfera a mais —o que altera completamente o comportamento dos gases dentro do organismo. O ar respirado pelo mergulhador é composto, em sua maior parte, por nitrogênio. Em condições normais, esse gás quase não participa da circulação sanguínea. Mas sob pressão elevada, ele começa a ser absorvido em quantidades muito maiores pelo sangue e pelos tecidos. Morte nas Maldivas: operação de alto risco tenta resgatar corpos de mergulhadores "No dia a dia, quase não absorvemos nitrogênio pela corrente sanguínea. Mas, no mergulho profundo, o corpo fica submetido a uma pressão muito maior do que a pressão atmosférica normal. Isso faz com que esse nitrogênio passe a entrar no organismo em quantidades muito mais expressivas", explica Ricardo Katayose, cirurgião cardiovascular da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo. Para o neurocirurgião Helder Picarelli, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, o risco começa antes mesmo da subida. "Quanto maior a profundidade, mais os gases se difundem e se dissolvem no sangue, nos músculos, na gordura e no cérebro", explica. "Enquanto o mergulhador permanece no fundo, esse nitrogênio fica dissolvido sem causar dano. O problema é a volta." Por que a subida precisa ser lenta Quando o mergulhador começa a subir, a pressão externa cai. Para eliminar o nitrogênio acumulado, o organismo depende dos pulmões: o sangue passa pelos alvéolos pulmonares e o gás vai sendo liberado aos poucos pela respiração. Se a subida for rápida demais, esse processo não acontece a tempo. Para entender por quê, vale pensar em como o sangue funciona. Ele circula pelo corpo inteiro e, a cada volta, passa pelos pulmões —onde troca gás carbônico por oxigênio. É nesse mesmo trajeto que o nitrogênio acumulado durante o mergulho pode ser eliminado: o gás sai do sangue, passa para os alvéolos pulmonares e é expelido pela respiração. Mas isso leva tempo. Quando o mergulhador sobe rápido demais, o sangue não completa voltas suficientes pelos pulmões antes de a pressão cair. E é aí que o problema começa: com nitrogênio ainda dissolvido em excesso e a pressão externa diminuindo rápido, o gás não consegue mais permanecer no estado líquido —e começa a formar bolhas dentro dos próprios vasos sanguíneos. Como aparecem as bolhas no sangue O mecanismo lembra o de uma garrafa de refrigerante. Enquanto fechada, o gás permanece dissolvido no líquido por causa da pressão interna. Quando a tampa é aberta, a pressão cai abruptamente —e surgem as bolhas. Dentro do organismo, algo semelhante ocorre quando o nitrogênio não é eliminado a tempo. Com a queda brusca de pressão, o gás passa do estado dissolvido para o gasoso e começa a formar microbolhas na corrente sanguínea. Essas bolhas circulam pelo corpo e funcionam como pequenos coágulos de ar. Ao bloquear artérias e vasos menores, impedem que o oxigênio chegue aos tecidos e órgãos. "Essas bolhas acabam funcionando como trombos dentro da circulação", resume o médico. É por isso que mergulhos técnicos seguem protocolos rígidos de retorno, com as chamadas paradas de descompressão —pausas obrigatórias em determinadas profundidades antes de continuar subindo. Elas existem justamente para dar tempo ao corpo de eliminar o excesso de gás. Quais sintomas a doença provoca A doença da descompressão tem gravidade variável. Nos casos mais leves, o mergulhador sente dores nas articulações, tem manchas avermelhadas na pele, fadiga, tontura e dormência —sintomas que podem surgir minutos ou horas após a saída da água. Nos casos mais graves, as bolhas atingem órgãos vitais. Quando chegam aos pulmões, causam falta de ar severa. No cérebro, provocam alterações neurológicas e perda de consciência. No coração, podem desencadear uma parada cardiorrespiratória. Segundo Picarelli, as consequências podem incluir AVC, infarto e parada cardíaca. As bolhas também são capazes de destruir os alvéolos pulmonares e lesar a medula espinhal —o que explica casos de mergulhadores que ficaram paraplégicos. O tratamento é feito em câmaras hiperbáricas: o paciente volta a ser submetido a pressões elevadas, de forma controlada, para que as bolhas diminuam e o

Mohamed Mahudhee morreu durante operação de resgate de mergulhadores italianos nas Maldivas. Reprodução/@MMuizzu via X O sargento-mor Mohamed Mahudhee mergulhava a dezenas de metros de profundidade nas Maldivas quando o corpo começou a trair. Ele participava das buscas por quatro italianos desaparecidos em cavernas submarinas no Atol de Vaavu quando desenvolveu a doença da descompressão e não resistiu. A condição é um dos riscos mais conhecidos do mergulho profundo. Ela acontece quando o mergulhador sobe à superfície rápido demais e o organismo não consegue eliminar os gases acumulados durante o tempo submerso. O resultado pode ser uma embolia gasosa fatal. O que muda no corpo quando você está embaixo d'água Ao nível do mar, o corpo humano vive sob uma pressão equivalente a uma atmosfera. A cada dez metros de profundidade, essa pressão aumenta uma atmosfera a mais —o que altera completamente o comportamento dos gases dentro do organismo. O ar respirado pelo mergulhador é composto, em sua maior parte, por nitrogênio. Em condições normais, esse gás quase não participa da circulação sanguínea. Mas sob pressão elevada, ele começa a ser absorvido em quantidades muito maiores pelo sangue e pelos tecidos. Morte nas Maldivas: operação de alto risco tenta resgatar corpos de mergulhadores "No dia a dia, quase não absorvemos nitrogênio pela corrente sanguínea. Mas, no mergulho profundo, o corpo fica submetido a uma pressão muito maior do que a pressão atmosférica normal. Isso faz com que esse nitrogênio passe a entrar no organismo em quantidades muito mais expressivas", explica Ricardo Katayose, cirurgião cardiovascular da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo. Para o neurocirurgião Helder Picarelli, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo, o risco começa antes mesmo da subida. "Quanto maior a profundidade, mais os gases se difundem e se dissolvem no sangue, nos músculos, na gordura e no cérebro", explica. "Enquanto o mergulhador permanece no fundo, esse nitrogênio fica dissolvido sem causar dano. O problema é a volta." Por que a subida precisa ser lenta Quando o mergulhador começa a subir, a pressão externa cai. Para eliminar o nitrogênio acumulado, o organismo depende dos pulmões: o sangue passa pelos alvéolos pulmonares e o gás vai sendo liberado aos poucos pela respiração. Se a subida for rápida demais, esse processo não acontece a tempo. Para entender por quê, vale pensar em como o sangue funciona. Ele circula pelo corpo inteiro e, a cada volta, passa pelos pulmões —onde troca gás carbônico por oxigênio. É nesse mesmo trajeto que o nitrogênio acumulado durante o mergulho pode ser eliminado: o gás sai do sangue, passa para os alvéolos pulmonares e é expelido pela respiração. Mas isso leva tempo. Quando o mergulhador sobe rápido demais, o sangue não completa voltas suficientes pelos pulmões antes de a pressão cair. E é aí que o problema começa: com nitrogênio ainda dissolvido em excesso e a pressão externa diminuindo rápido, o gás não consegue mais permanecer no estado líquido —e começa a formar bolhas dentro dos próprios vasos sanguíneos. Como aparecem as bolhas no sangue O mecanismo lembra o de uma garrafa de refrigerante. Enquanto fechada, o gás permanece dissolvido no líquido por causa da pressão interna. Quando a tampa é aberta, a pressão cai abruptamente —e surgem as bolhas. Dentro do organismo, algo semelhante ocorre quando o nitrogênio não é eliminado a tempo. Com a queda brusca de pressão, o gás passa do estado dissolvido para o gasoso e começa a formar microbolhas na corrente sanguínea. Essas bolhas circulam pelo corpo e funcionam como pequenos coágulos de ar. Ao bloquear artérias e vasos menores, impedem que o oxigênio chegue aos tecidos e órgãos. "Essas bolhas acabam funcionando como trombos dentro da circulação", resume o médico. É por isso que mergulhos técnicos seguem protocolos rígidos de retorno, com as chamadas paradas de descompressão —pausas obrigatórias em determinadas profundidades antes de continuar subindo. Elas existem justamente para dar tempo ao corpo de eliminar o excesso de gás. Quais sintomas a doença provoca A doença da descompressão tem gravidade variável. Nos casos mais leves, o mergulhador sente dores nas articulações, tem manchas avermelhadas na pele, fadiga, tontura e dormência —sintomas que podem surgir minutos ou horas após a saída da água. Nos casos mais graves, as bolhas atingem órgãos vitais. Quando chegam aos pulmões, causam falta de ar severa. No cérebro, provocam alterações neurológicas e perda de consciência. No coração, podem desencadear uma parada cardiorrespiratória. Segundo Picarelli, as consequências podem incluir AVC, infarto e parada cardíaca. As bolhas também são capazes de destruir os alvéolos pulmonares e lesar a medula espinhal —o que explica casos de mergulhadores que ficaram paraplégicos. O tratamento é feito em câmaras hiperbáricas: o paciente volta a ser submetido a pressões elevadas, de forma controlada, para que as bolhas diminuam e o nitrogênio seja eliminado aos poucos. O mergulho nas Maldivas A operação em que Mahudhee morreu era considerada de alto risco pelas autoridades locais. Os italianos desaparecidos teriam mergulhado em uma região próxima dos 50 metros de profundidade —acima do limite recomendado para mergulho recreativo, que fica em torno de 40 metros. O sargento era descrito como experiente e já havia realizado descidas de até 70 metros. Mas profundidade, tempo submerso, esforço físico e velocidade de subida são fatores que se somam —e podem elevar o risco da doença descompressiva mesmo em profissionais treinados.
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